05 setembro 2016

Reflexões da vida quase adulta

A gente vive uma geração que você precisa conquistar a vida na casa dos vinte e poucos, mesmo eu achando que a vida vai muito além disso, é inevitável, a gente sente essa pressão chegando quando começa a viver de verdade fora da nossa caixinha de conforto, e eu tenho falado muito sobre isso esse ano, não é que tenha sido um baque minha rotina ter mudado tanto, mas sim o quanto eu tenho aprendido com essa vida quase adulta. O que eu percebi é que a gente pode estar na melhor universidade do país, pode ter feito cursinho, vários cursos, etc, mas aonde a gente aprende mesmo é fora desses lugares.
A gente não aprende a viver decorando conteúdo pra jogar numa prova, a gente não aprende a viver lendo sobre o mundo, sobre os problemas e não os vivendo, a gente aprende é enfrentando tudo isso na realidade.
No meu caminho pra USP leste, no trem, eu vejo a verdade paulistana, as pessoas de extrema baixa renda, pessoas que realmente, em todos os sentidos, moram em baixo da ponte, que não tem acesso a saneamento básico, educação de qualidade e lazer, que luta pra dar o pão pro filho que entra no trem e pede algumas moedinhas. E por mais que há duvidas se aquele dinheiro que você entrega vai ser pro pão ou não, a importância do ato de ajudar é ter empatia. Ter empatia é aprender a viver melhor consigo mesmo e com os outros. E você não aprende a ter empatia se não enfrentar isso de olhos bem abertos, se você não sentir no seu coração.
O aprendizado vem lidando com as pessoas, é entender que somos diferentes um do outro, que é preciso ter paciência e acima de tudo respeito, que por mais que você não consiga entender aquela pessoa da faculdade, do trabalho, ou de qualquer outro lugar, ela é um ser humano com todas as complexidades que você também tem e por isso a gente deve aprender a lidar, a respirar fundo e não sai xingando a mãe de ninguém.
Ou quando a gente tá no trabalho e tem que enfrentar reclamação, pressão, tempo, fome, sono, a gente aprende que chefe não é mãe e pai, que a gente não tá em casa, e assim aprende-se novamente  a ter paciência, a querer melhorar, lutar pra melhorar e buscar o melhor, a lidar com pessoas, a enfrentar as situações.
A gente aprende assim, na fila do  banco quando alguém puxa conversa com você e aquilo se torna mais interessante e agregador do que uma conversa no WhatsApp, com a pessoa mais velha que conta sobre uma experiência de vida, com os obstáculos que enfrentamos, quando a gente quebra a cara, quando algo não dá certo, com os relacionamentos, com o amor, quando o dia tá ruim, quando tudo parece conspirar contra você, quando chove e você tirou o guarda-chuva da bolsa, quando você precisa economizar, quando você toma uma decisão, quando você erra, quando precisa admitir seus erros, quando precisa aprender a perdoar, quando quer o melhor, quando é gentil, quando tem paciência, quando reclama do despertador mas sabe que deve levantar, quando recomeça todos os dias pronto pra aprender, mesmo que não perceba. Porque é esse aprendizado que é importante pra vida.

22 junho 2016

Alguém que se conhece pouco


Das coisas que eu me tornei uma delas foi ser alguém que luta constantemente pra tentar se encontrar. Em casa, no caos urbano, na faculdade, no silêncio do domingo à noite. E estar só com meus pensamentos me faz perceber que eu me tornei alguém que se conhece pouco, talvez porque conhece pouco o mundo, talvez porque errou ao tentar se conhecer.
Não vou dizer que sou exatamente a mulher que eu queria ser, agora, nessa turbulência que está minha vida, tenho deixado tanta coisa acumular, bagunçar, que tenho refletido as confusões que eu fiz. Mas não me arrependo de todas as escolhas e posso dizer que esse processo de amadurecimento me faz entender melhor o propósito da vida pra mim, não bem o que eu quero, não bem onde eu quero chegar um dia, e nem tanto o que eu quero ser, mas sim o percurso que eu quero.
Onde vamos chegar deveria sempre ser um mistério.

É como acordar todos os dias 5h da manhã enfrentar a correria paulistana e chegar a um lugar em que não estava exatamente nos meus planos, mas o lugar onde eu realmente deveria estar. E mesmo achando que não dou o meu melhor pra encarar o que eu tenho no meu presente, sempre tem uma hora no caminho, seja olhando para a janela no metrô e trem, seja andando por aí, em que eu fico grata por sair cada vez mais da zona de conforto, mesmo sabendo o quão difícil é e tem sido, e entender –quase sempre- que eu não preciso carregar tanta preocupação e desespero desnecessário, como dizia minha ex-psicóloga “Você só tem 17”.


05 junho 2016

Viagem: Paraty- RJ

Já adicionei uma nova cidade queridinha na minha lista: Paraty! Passei o feriado prolongado de Corpus Christi com amigos, acampando nessa cidade linda, foram quatro dias inesquecíveis! E além de conhecer esse lugar mágico, já risquei um item da minha lista de coisas que precisava fazer: acampar!




Como vocês podem ver as praias são belíssimas! Logo no meu primeiro dia lá fizemos um passeio maravilhoso de escuna, para quem ama o mar como eu é uma sensação inenarrável ficar horas passeando pelo mar, um privilégio! O passeio de escuna é imperdível, com som ao vivo então ficou perfeito.

No passeio de escuna fizemos uma parada na Praia da Lula. Foi muito gostoso nadar naquela calmaria, mais legal ainda foi pular da escuna direto para o mar!




Jantamos no Pub Van Gogh, e super recomendo a vocês! A decoração é linda, a energia do lugar é muito positiva, e o preço estava bom. Tinha duas opções de caldos, por R$ 10,00 pedi o de abóbora com gorgonzola, mas meus amigos recomendaram também o de mandioca com camarão.





A noite de Paraty é deliciosa, vários artistas de rua cantando, tocando, artistas vendendo artesanatos, é muito gostoso ficar passeando no centro histórico de noite. No nosso segundo dia fizemos um passeio ao Museu do Forte, a vista de lá é linda.


Outro passeio incrível em Paraty é na Praia do Jabaquara. Fomos visitar o mangue e depois a praia, é lá que acontece o Bloco da Lama no carnaval! E claro, teve guerra de lama! Nunca imaginei que fosse tão divertido nadar no mar com o mangue.
Visitamos as Igrejas de Paraty, com uma guia muito legal. Paraty é uma cidade histórica, então tem muita coisa interessante para aprender sobre lá!




Fizemos também a trilha do Caminho do Ouro, que dava para uma cachoeira. A água estava super gelada, mas não poderia deixar de me energizar nas águas da cachoeira de Paraty.



 No nosso último dia lá, depois do almoço fomos comer uma sobremesa em um Café lindo chamado Manuê, experimentei um brownie com sorvete de baunilha e morango, definitivamente esse doce entrou para minha lista de preferidos.

A viagem foi super divertida, fizemos sarau, fomos a festa junina, e em uma balada de lá que é dentro de um boliche. Os ares de Paraty contagia todo mundo!
Para quem ama o litoral, assim como eu, e mais ainda a calmaria e a beleza de uma cidade cheia de valor histórico e cultural, Paraty é o lugar certo. Foi uma viagem inesquecível, na companhia de pessoas muito queridas! Certamente me renovei, e difícil foi se habituar com a correria de São Paulo, depois de dias lindos naquela cidade poética! 
Já estou com saudades, Paraty <3








19 maio 2016

Precisamos falar sobre relacionamentos abusivos

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A adaptação dos quadrinhos da Marvel, a série Jessica Jones tem como protagonista uma mulher que foi alvo de um relacionamento abusivo


Ela tinha 15 anos e então um cara mais velho se interessou por ela, parecia a coisa mais incrível, e até pode ser, não se deve generalizar dizendo que se envolver com caras mais velhos sempre seja ruim e que relacionamentos abusivos só acontecem com caras mais velhos, mas esse fato em si se repete com muitas garotas. E foi assim, ele tinha 25, dava aula, era inteligente, estava na faculdade e apresentava um mundo novo a ela, além disso gostava das mesmas coisas. Fazia ela se sentir"diferente das outras garotas" porque ela tinha sido a escolhida e pela primeira vez alguém muito interessante estava afim dela, e não só os caras do ensino médio. Mas a verdade é que ele era só mais um cara abusivo, dentre tantos que tem por aí. E como ela reconheceu que aquilo que ela estava vivendo era abusivo:
Ela se sentia errada a todo o momento. Se ele não mandasse mensagem, ela errou em alguma coisa, se ele não a tratava bem, ela errou de alguma forma, se ele ficava com outras garotas, a errada foi ela, se ele desmarcasse o encontro porque deu uma festa a noite passada e estava de ressaca, ela que errou. Ela era a louca, ela que deveria ser melhor o tempo todo em prol dele. Ela estava psicologicamente acabada com apenas quinze anos.
Ela deveria ser gentil com ele mesmo se ele fosse um babaca com ela, porque se ele estava sendo babaca a culpa foi dela em algum momento. Deu pra perceber? Você começa a assumir uma postura de culpa constantemente, como se você precisasse sempre ser perfeita pra ele. É um clico.
Se o cara te trata mal, te deixa constrangida na frente dos outros, faz com que você em algum momento se sinta incapaz de tomar suas próprias decisões, assume uma postura possessiva, usa drogas como desculpa pra abusar de você, te obriga a fazer coisas no relacionamento contra sua vontade, age como se precisasse “ensinar uma lição” sempre que está descontente com o relacionamento, faz você se sentir louca pra te culpar pelos erros dele: você está vivendo um relacionamento abusivo.
Mesmo se não tiver violência física!
Se não existir não quer dizer que o que a pessoa está passando não seja algo abusivo. A ideia de “mas ele não me bate” omite todo sofrimento psicológico e se transforma em um motivo pra pessoa não reconhecer que esta vivendo isso.
E o primeiro passo é sempre reconhecer, a questão é que muitas mulheres estão presas a esse relacionamento de uma forma que não conseguem se imaginar sem ele, porque a ideia de que não vai ser capaz de ser feliz sozinha, de encontrar outra pessoa melhor é sempre o pensamento que surge depois de uma sensação pós briga, por exemplo.
E não! Não deve ser assim.
Existem milhares de mulheres de todas as idades convivendo com isso. Que acha impossível recomeçar, que tem a ideia de que ama o cara demais e é melhor viver assim do que viver sem ele, que não fala sobre isso com ninguém, até porque ele é outro cara quando está com os amigos e a família. E assim se silencia esse caso.
E é com esse silêncio que a mulher perde. 




12 maio 2016

E agora?


Desde pequena sou engajada ao ativismo, seja fazendo campanhas ecológicas - quando eu tinha só oito anos - seja tomando voz em uma sala de aula para discordar de um professor machista, defendo as coisas que eu acredito mesmo diante de uma autoridade, escrevendo sobre feminismo, política e sobre meus ideais. Mas nunca me senti, diante das conjunturas politicas atuais, em uma rua sem saída. Hoje, assistindo nos noticiários uma presidente ser afastada de seu cargo, quando eleita democraticamente, e acompanhando uma ocupação um tanto duvidosa na minha universidade, senti que minha voz estava esvaindo e que no meio dessa confusão toda, eu só pudesse ouvir aqueles que sempre puderam falar. 
Fui aluna de escola pública quase que minha vida toda, eu tenho propriedade quando afirmo que falta merenda sim nas escolas estaduais, porque faltava na minha. E embora eu reconheça que nunca precisei da merenda para me alimentar, eu sei porque já vi com meus próprios olhos alunos que dependiam daquele prato de arroz e feijão para se sustentar praticamente o dia todo. 
Os secundaristas hoje das escolas públicas estão dando um show de política e atuação, eles têm propriedade no que estão fazendo e no porquê de estarem lutando. Mas o que vejo sobreposto a isso, na universidade pública e em outros lugares é que muita gente tenta roubar a luta, ou se apropriar da voz de quem não tem uma vida de privilégios.
Tem uma galera aí que veste a camisa de defensor do pobres, porém nunca precisou trabalhar, não fala bom dia para o porteiro e para as faxineiras da sua universidade, entretanto quer aderir a luta dos trabalhadores com muita garra. O problema em si, não é o cara de classe média alta querer sair da bolha e lutar pelos direitos do pobre, o problema é que esse cara de classe média alta luta na frente dos pobres por algo que ele nunca vivenciou, roubando a cena, calando as vozes mais baixas e se sentindo no direito de ser uma figura representativa. Não há consciência de classe. Eles acham que saíram da bolha, mas na verdade só entraram em outra, com nome de hipocrisia.
São tempos difíceis, de caos, tempos em que vestir a camiseta verde e amarela representa apenas um lado e não um todo, quando a camiseta do Brasil deveria vestir todos os brasileiros. São tempos difíceis de  tentar se situar, tempos de indecisão, em que escolher um lado é assumir tanta coisa junto. Tempos de luta, sobretudo, para não transformamos o presente em passado.
E o que eu desejo é que a liberdade não seja só um sinônimo de utopia, é triste pensar no nosso país se desmanchando em vários sentidos, principalmente naqueles chamados democracia e justiça. Hoje, agora, me sinto representada por muito pouco, mas me sinto no direito de não deixar a luta ganha, porque eu faço parte da maioria que dificilmente é vencedora, os trabalhadores, estudantes de escola pública, moradores da periferia, os que lutam por um país melhor.  
E nós jovens que conseguimos tantas coisas, com nossa considerada bagunça, nos vemos em um jogo que já parece vencido por ratos sujos que não moram no porão, mas sim no planalto. A semana parece estar sendo marcada por acontecimentos históricos.
 Em tempos assim, me resta escrever, me resta lutar, pois também são tempos de temer.









06 maio 2016

Crônica: Como fazer amizade em São Paulo


Existem algumas formas infalíveis de fazer amizade em São Paulo, pelo menos aquelas amizades de cinco minutos, ou de dez quem sabe. Algumas coisas unem as pessoas de uma forma muito engraçada, e essas coisas são: caixa que não funciona mais, fila, trânsito e o clima. Definitivamente desde que São Paulo virou parte da minha rotina, tenho feito amizade com umas duas senhoras por dia, ou mais, porque todas nós somos movidas por um elemento muito paulistano, a tal da pressa.
- Nossa,  como assim, um caixa só, e essa fila toda?
- Não é menina, como pode né? Eles acham que temos o dia todo... Só pode.
- Pois é, minha filha, e eu to indo é pra longe...
- E eu também, pra onde você está indo?
E assim basicamente começa uma conversa de cinco, oito minutos, até as pessoas serem separadas pelas catracas do metrô, ou pelos destinos diferentes do busão. O fato é que uma coisa todo mundo nesse mundo sabe fazer muito bem: reclamar. Não importa se a mulher a minha frente tem quarenta anos, e se a menina de trás tem quatorze, se estamos apressadas, esperando um ônibus chegar, ou algo voltar a funcionar, somos unidas pela impaciência, pela vontade de que as coisas normalizem. 
Viver em São Paulo é praticar constantemente o exercício da paciência, ou tentar aprende-lo. Se você quer chegar as sete, tem que sair de casa as cinco, se quer muito pegar aquele ônibus, de qualquer forma vai chegar atrasado no ponto e esperar meia hora o outro passar, se tiver sorte não vai ter nenhum acidente nas rodoviais, se tiver mais sorte ainda, não vai esquecer o guarda chuva em um dia que começou com sol e terminou nublado. Mas isso é de lei, você vai esquecer. Você vai pegar chuva.
Mas não é de todo ruim, com esse sentimento coletivo de insatisfação, e pressa, você aprende que não está sozinho, porque não importa se a tia que pegou o metrô comigo na semana passada e começou a papear sobre a bipolaridade do clima, é de esquerda ou de direita, eu não sei o que ela faz aos finais de semana, eu não sei se ela é casada ou divorciada, mas no meio de nossa conversa de dez minutos até ela descer na Fradique Coutinho, a mulher me contou rapidamente sobre seu sonho de ir morar no interior, e disse que eu lembrava a irmã dela. A indignação com a bipolaridade do clima paulistano nos aproximou por dez minutos e essa pessoa não foi só mais uma de todo o caos do dia.
É possível encontrar sorriso em meio a bagunça paulistana, é possível encontrar alguém que te entenda quando você entra em uma fila de vinte minutos e fica revoltada, e a pessoa vai dizer:
- Vou chegar atrasada. - E você vai responder:
- Eu também.











17 abril 2016

Como um velho amigo


Desde que eu te vi de novo meu coração parece pequeno e frágil agora. Eu me sinto tão pequena e indefesa, como se qualquer coisa pudesse me machucar. Qualquer coisa ligada a você. E eu prometi não escrever mais sobre isso, porque dói, e eu me sinto pagando caro por algo que eu não comprei, levando todos os socos de uma briga que eu nem quis entrar.
Eu sei que vai passar, mas é difícil convencer minha mente quando meu coração só tem batido forte por você, de novo e de novo por aí, como um velho amigo que a gente encontra pela rua e diz sobre a vida.
Acho que te ver muda o sentido de tudo, porque depois de alguns meses jurando pra mim mesma que eu ia me recuperar fácil, eu sinto que tudo foi dito em vão, mesmo eu estando cansada de pedir conselhos sobre isso e mesmo as pessoas estando cansadas de ouvir falar sobre a gente.
Você tá se tornando o cara que eu sempre achei que não fosse ser. Parece mais seus amigos do que você mesmo, mas eu ainda sinto seu olhar antigo em mim enquanto eu desvio pra não dar na cara que meu coração ainda é seu. Sempre foi.
Noite passada eu fiquei com alguém, tentando te esquecer, mas nem o álcool e nem qualquer outro beijo faz você sumir da minha mente, porque ainda parecemos tão próximos, mesmo sentindo que você tenta virar a página todos os dias. E você está melhor nisso do que eu.
Passamos de pessoas com uma história em comum pra pessoas com conversas casuais quando se encontram por ai pela cidade na correria do dia.
Quem diria, me tornei a garota que eu menos queria ser. Passei de durona pra ser alguém que chora domingo a noite por problemas que parecem tão pequenos, por ter feito uma bagunça na vida de um cara e uma bagunça na minha vida também.
E é o que todo mundo já diz, deu o que tinha que dar, e talvez essa seja a parte que a gente toca nossa vida pra frente. E eu devo fazer o que manda o script, focar na minha carreira, pensar em mim e ser feliz.



08 abril 2016

Bossa nova


Era necessário estar ali, era necessário ter a casa limpa, as roupas lavadas, o tapete aspirado, era necessário ligar para os filhos, perguntar dos netos, era necessário os dois estarem sentados nas poltronas. Silêncio. Velhos com o tempo que correu. Porque correu? Por um instante ela podia jurar que seus filhos ainda estavam correndo pela casa, que as roupas estavam no varal, que o marido estava chegando do trabalho e tinha um bolo no forno. E ele lembrava com velhas fotos 3x4  na carteira, da mãe, do irmão, e da tia.
Os rostos enrugados, o coração já gasto de um amar antigo. Baixinha uma música ressoava pelo cômodo, uma velha bossa nova, dos tempos de brilho nos olhos, batom vermelho e paletó bem passado. Uma bossa nova, dos velhos tempos. Eles se olharam, naquele minuto perigoso, em que a lembrança vira gente e abraça o nosso corpo. Em um ímpeto, os dois sabiam o que significava validade, idade, tempo, mas não queriam saber. Pois, a canção era a mesma. Diferente estavam eles.
Ela se levantou, e no mesmo instante ele já sabia... Mãos na cintura, mãos no pescoço, um passo ao lado, outro para trás, dois jovens amantes dançavam na sala de estar, a menina dos olhos de um verde de esperança, o menino de sorriso tímido. Os passos eram curtos, e naquele momento, a vida era longa.
Envelhecer é a prova de que o tempo é real, porque tudo acontece tão rápido, parece que a juventude é eterna e que a ideia de que o tempo passa é um mito, que aqueles ponteiros do relógio não marcam nada, que os anos mudando só mudam em um correr inútil. Mas o tempo é real. E eles são a prova de que o tempo passou. Só não passou com a bossa nova, que trazia tudo e não levava nada. A batida os conduzia, como somos conduzidos as estações. E só quem sobrevive fortemente a todas as estações pode ser o que eles são. Não mais imunes ao tempo, mas o próprio tempo.
E as memórias de formaturas, casamentos, almoços e viagens, estavam em uma mala cheia de fotos em cima do armário de madeira. Também estava na mente deles, mas enquanto dançavam a bossa nova, ainda caía ali as pétalas brancas de casamento, ainda dava para sentir o cheiro do macarrão dos almoços, ainda estavam em algum lugar longe a passeio. Tudo estava vivo. Os corpos se seguravam na tentativa de um pertencimento que insiste em viver depois de tantas chuvas. Eles dançavam devagar, porque a vida por si só já dançou muito rápido. Já era noite, mas na sala de estar amanhecia.
A velha bossa nova chegou ao fim, mas dali era possível ver o céu, lá fora refletia para dentro uma constelação de memórias.







03 abril 2016

Algo sobre um desabafo




Eu não sei o que eu tenho tentado me acostumado mais: com o caos dessa cidade agitada ou com o fim de um relacionamento. Eu sei que venho tentando lidar com os dois, em meio a decisões importantes e um começo de ano bem improvável. Engraçado como esse ano que mal começou já me rendeu tanta coisa. Talvez porque seja o começo de uma vida fora da zona de conforto, fora daquela bolha que a gente se protege por tantos anos, longe do ensino médio e da minha antiga rotina.
Alguma vezes me pergunto se fiz as escolhas certas nesse momento. Mas com esse fevereiro que parece que durou um ano inteirinho, cheio de ansiedade e choros no meio da noite por causa de decepções, e um março cheio de surpresas, meu nome na lista de aprovados e outra lista de coisas pra fazer eu só sei que tenho que saber lidar com as minhas próprias decisões.
Parece mais um desabafo, mas o que eu tenho percebido é que as vezes as pessoas só querem de algum jeito jogar pra fora tudo o que sufoca. O homem no metrô contou sobre sua vida.
Mas algumas coisas nunca mudam. Eu coloca a mesma playlist pra tocar.
E então tem a faculdade, a necessidade de um café pra aguentar um dia inteirinho agitado, o despertador tocando ás 4h30 da manhã (manhã?) o dinheiro pra xerox na faculdade, as longas filas de espera, a gastrite gritando, a mensagem do ex, o remédio pra dor de cabeça que sempre esqueço, a chuva, o guarda-chuva que ficou em casa, os currículos, os trabalhos pra entregar, o trem que demora, os planos anotados na agenda e até a terapia de quarta-feira.
Voltarei com a yoga e preciso ver o pôr do sol pelo menos algumas vezes na semana.





29 março 2016

Só mais um texto sobre você



Eu queria escrever alguma coisa bem bonita pra gente. Mas eu nem sei se você merece o tempo que eu tenho passado pensando em você. Você se tornou aquela história que meus amigos não querem mais escutar, você se tornou aquela conversa que se chama saudade, você se tornou  os conselhos que minha irmã nem quer mais dar, porque eu não segui nenhum: esquecer você, não ter recaídas, colocar um fim.
É difícil escrever sobre uma coisa que foi real, eu sempre fui melhor pra escrever sobre amores inventados. Mas ai tem você. E apareceu tanta gente na minha vida já, mas toda vez era o mesmo final: lá estava eu em pedaços. Quando você ficou -um velho amigo- foi como se eu finalmente encontrasse uma parte de mim, mas não. Aqui estou eu novamente como cacos de vidro espalhados pelo chão.
E a culpa nem foi nossa.
Sei lá o que aconteceu, mas já faz quatro meses e toda vez que é quinta eu sei que sexta eu não te vejo mais. Todos os dias têm sido intermináveis quintas. E já faz um mês desde a nossa última recaída, e dessa vez eu sinto que estamos tentando colocar de verdade um fim. Apesar dos amigos em comum, e das lembranças que ficam em vários lugares, apesar daquela noite que a gente jurava ser pra sempre, apesar de todos os nossos beijos e toda essa coisa que a gente constrói quando gosta de alguém. Aqui estamos nós, cada um no seu canto tentando começar uma vida diferente cheia de responsabilidades, trabalho de faculdade, rotina e pessoas novas.
Eu juro que sempre que eu entro naquele bar eu olho pra mesa que nos sentamos, eu sinto saudade. Talvez um dia eu passe por lá e me esqueça de lembrar nós dois.
E é tão estranho porque é como se tudo tivesse acontecendo pra nos separar, mesmo com nossas inúmeras tentativas de tentar nos ver pra conversar, pra devolver algumas coisa, pra dar seu presente que ficou aqui, a vida dá um giro como quem diz que já desperdiçamos nosso tempo.
Não sei se você  já me superou, se você excluiu as músicas que te fazem lembrar de mim, se você ainda pensa naquelas cenas que eu estou revirando os olhos por causa de alguma idiotice que você falou, ou da química que tínhamos quanto estávamos juntos. Mas eu sei que você está tentando esquecer tudo. Talvez em festas, por ai, ou ocupando a mente com alguma coisa, qualquer lugar  que era ocupado por mim.
Eu não tenho mais notícias suas, e eu já cansei de tentar fazer dar certo, de sentir esse aperto no peito toda vez que eu penso que foi por tão pouco. Das nossas conversas em que fingimos que está tudo bem, que nunca tivemos nada. Soa tudo tão falso. Eu me cansei de parecer a errada da história. Eu cansei dessas músicas de amor, de passar tanto tempo com seu nome na cabeça. E eu sei que você também se cansou.
Porque tudo que eu tenho agora é só mais um texto sobre você.

21 março 2016

Benefícios do Chocolate para a Saúde

 A parceria do blog com a Rosi Feliciano que nos enviou seu artigo no Publique Seu Texto, vai mostrar pra você benefícios que o chocolate traz para a nossa saúde, bora conferir?

Várias pessoas não têm conhecimentos dos benefícios que o chocolate traz para saúde, assim acabam se privando de se deliciar com esse doce, na Páscoa é quase uma tortura não comer chocolate, por isso conheça alguns dos benefícios do chocolate.
Algum de nós precisa de uma razão convincente para nos fazer comer chocolate. O sabor e a mudança de humor momentânea são suficientes para fazer um tratamento que não é difícil.
Mas se você não está comendo diariamente, você pode estar por fora em alguns dos benefícios para saúde mais surpreendentes do chocolate escuro que você nunca soube.

06 março 2016

Até onde vai dar


Eu queria esquecer você de vez. Não me segure com força agora, estou tentando te esquecer, fica tudo mais difícil com você em volta, com você na porta me olhando voltar com seus olhos tipo faróis de um carro veloz, na noite gelada. Como eu vou te esquecer desse jeito? Eu ainda não tirei todas as minhas conclusões do que você sente para nos dar o diagnóstico de tudo que aconteceu, então diga-me o que sente, eu vou tentar te escrever, só me diga porque tudo isso ainda não terminou.
Você parece sozinho agora com seus vícios e discos de vinil, você parece confuso agora com todas as minhas possíveis chances de te trazer de novo pra minha vida e depois todas as despedidas repentinas que duram uma semana. Eu não consigo imaginar algo para nós dois que não seja essa emergência, essa ventania, eu não consigo imaginar mais nada para nós dois que não seja ver você indo e depois voltando, e eu não conseguindo ficar.
Todas as vezes que você pergunta porque não fazemos durar, eu desvio o olhar, desvio o assunto, você devia ter notado que é tudo devastador, devorador, o que nos desvenda. E quando os nossos olhares se encontram do nada eu sinto como se fossemos parte de uma história muito mais louca do que achamos fazer parte. Então você me conta da sua vida, bebe metade da garrafa, xinga algumas pessoas no meio de todo o seu desabafo, a gente fingi que está tudo bem porque estamos loucos demais para perceber que tudo isso irá se despedaçar depois.
Eu só queria que não fosse difícil deixar de te procurar a cada momento em que a bagunça que eu faço me bagunça também, quando os problemas parecem tomar todos os cantos, eu não queria precisar de você para me abraçar no meio desse barulho, mas você me norteou e eu só não sei usar essa bússola para encontrar o ponto em que fazemos as coisas permanecerem sãs.
Ainda fico em dúvida sobre essa sua esperança sem fim no amor, talvez aí é que nos distanciamos, eu não consigo ficar bem se não estivermos jogando limpo, vou acreditando aos poucos nas suas frases feitas, aos poucos eu me deixo por completo ser seu abraço, mas por um momento tudo isso me assusta, saímos de cena, as luzes se apagam, eu me protejo da sua imensidão, porque me afogar é tão fácil, quando você volta todas as vezes que a maré está cheia.
E eu continuo sem entender, você diz que essa é a graça das coisas, enquanto estamos nos esperando, resolvendo nossas vidas, o tempo vai indo, a gente vem vindo, se vendo, até ver onde vai dar.












04 março 2016

5 representatividades femininas no cinema


É notável que não há um número legal de mulheres em cargos decisivos no cinema, a indústria cinematográfica continua estereotipando o papel das mulheres nos filmes e séries. Mas listei quatro filmes e uma série que mostram personagens mulheres fortes e totalmente o contrário daquele papo de sexo frágil.

1- Rey

A Rey protagoniza o filme Star Wars: O Despertar da Força, ao lado de um negro, Finn e um latino, Poe. O filme tem uma representatividade feminina muito forte, quem assistiu deve ter visto que em nenhum momento a Rey precisou de alguma ajuda masculina, diferente de muitos filmes desse gênero que no enredo as mulheres sempre são colocadas em perigo e precisam ser salvas pelo herói. Em nenhum momento o filme caminhou para esse clichê.

2- Jessica Jones

A história em quadrinho de Jessica Jones estreou como série em novembro de 2015 e mostra não só a representatividade de uma mulher forte - mesmo com seus defeitos e fraquezas- como uma super heroína, mas também aborda assuntos como relacionamentos abusivos, o estupro, o aborto e a força das mulheres.

3- Claireece


Precious conta a história de uma jovem negra e gorda que é constantemente abusada pelo pai e violentada pela mãe, a jovem precisa se esforçar para levar a vida adiante. Após muita luta, Preciosa começa uma jornada que a levará ao mundo de luz, amor e auto-determinação. O filme foi baseado no livro "Push" da autora Sapphire que também é negra!

4-  Furiosa



Apesar do nome "Mad Max", o filme não tem Max como ator principal. Na verdade, Furiosa que protagoniza toda a história. Mad Max - Estrada da Fúria mostra excelentes momentos de liderança da mulher e emponderamento feminino.

5- Malévola



Malévola conta a história sobre o ponto de vista de uma vilã, o filme também prioriza o universo de soberanias femininas. O roteiro foi escrito pela Linda Wolvertoon e Linda e Angelina deram várias entrevistas e falaram da preocupação que tiveram com as pautas feministas.





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